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27 de dezembro de 2012

Anarquista denegridor

Tô me rastejando amor, minhas pernas estão pouco firmes para andar. Talvez tudo isso seja culpa tua, mas talvez seja minha. Só minha. Só minha por aceitar todas as vezes que você me chamou de idiota por não te querer sem interromper tuas falas, sem gritar o mais alto que eu pudesse que eu queria sim. Que eu queria mais que tudo. Que eu queria te fazer feliz, que eu queria montar, armar, fixar uma rede na tua vida. Ou quem sabe abrir uma barraca, ou melhor, construir uma casa. Pra nunca mais precisar ir embora, pra nunca mais te deixar. Mas eu tinha medo e também receio, porque no fundo eu sei que tu sabias que o que eu queria era ficar contigo por todo esse sempre. Confesso que, às vezes (ou todas as vezes), eu sentava em um daqueles bancos do lago esperando você chegar, com seu meio de transporte favorito, pra me levar longe dali, pra qualquer lugar desse mundo. E sabíamos, juntos, que teu meio de transporte favorito era o meu também. Porque favoritávamos o amor, mesmo desconhecendo-o. Mesmo não sabendo lidar com ele. Acho que era isso que nós mantia unidos, amor. Esses nossos problemas em comum, essas nossas dificuldades e fraquezas em comum. Que, quando juntos, pareciam pouco importar. Pouco valer um suspiro. Porque pouco acreditávamos nessa história de que corações completam outros. Que almas podem ser gêmeas. Não nos importávamos. Porque brigávamos, discutíamos, discordávamos e mesmo assim eu continuava gostando de você e você continuava gostando de mim, como tocava Oriente.
Amor, você sabe que nunca precisamos da superficialidade. Que nunca precisamos das palavras bonitas pra nos mantermos únidos, porque a única coisa que importava era que estivéssemos com todos os órgãos em total e perfeito funcionamento. Até despacharmos completamente com a serenidade do nosso sistema límbico, cujo qual eu comecei a venerar desde então. Só porque ele tinha você, e eu não.
Estranho.
Engraçado.
E lindo.
Descrevi você no meu chão, no lugar da base. Base que fugiu, que voou. Ou que, simplesmente, deu as costas e se foi.

18 de setembro de 2012

Sistema límbico friamente oco

“Cola em mim, no meu abraço” ela dizia. Sabe, eu sempre achei essa expressão um tanto sugestiva e, até mesmo, arrogante. Como poderia eu colar em ti se mal sei como viver sozinho comigo mesmo? Eu te derrubaria com um passo. Sempre achei demasiada a forma com que você apostava todas as suas fichas em mim, acreditavas que podia ser amor e eu, com meu gigantesco ego, só sabia que te encantava, que te fazia perder o juízo e, quem sabe, a loucura também.
Toda minha vida eu quis alguém assim e quando consegui, me escorei num barranco sem ter um lugar permanentemente certo para ficar. Eu era como um cão sem dono, um mendigo sem lar. Eu era um pleonasmo que sabe muito bem que mendigos não possuem lar, todavia sempre achei a rua um ótimo lugar para se estar. Eu tinha o meu conforto naquela casa branquinha e sempre precedia meu caminho para a rua de asfalto escuro. Sempre fui do contra, como dizia minha mãe. Minha doce mãe, a qual sabe-se lá qual rumo tomaste, hoje eu só tenho de agradecer a ela, ajoelhar-me sem pedir perdão. E era absolutamente desse meu jeito que ela tinha medo, nunca fui de ter arrependimento sobre os atos que eu cometia e ela sabia disso, até mesmo melhor que a mim. Tanto que minha coroa desistiu, me deixou viver sozinho e eu sei que rezava todo dia para que eu tomasse o melhor dos melhores rumos, mas sei também que isso não adiantaria de tal modo que não adiantou. Que reza ou santo nenhum, mesmo existindo, me tiraria do caminho para o buraco. Era a minha sina, sempre foi. 
E hoje estou aqui: feito, completo, crescido. Não tenho absolutamente ninguém para sentir orgulho de mim e dizer “Quem diria, em?”. Por um tempo, no começo, cheguei a pensar se isso não me faria falta, se ouvir alguém ter reconhecimento sobre mim não seria confortante, mas confortante mesmo sempre foi meu Cahors no final da noite e início da manhã. Sentava-me no antigo e “acárico” sofá neon e virávamos noites ele, seis coleções, duas coletâneas e eu, muito bem acompanhados de um Ormes de Pez 82 para dias de sentimento fúnebre. Normalmente, me perguntariam “E as putas, cara?”. E eu vou te falar uma coisa: sempre apanhava o homem que chamava minhas mulheres de putas. Eu me apaixonava por cada uma delas temporariamente. Até o dia em que eu vi os olhos claros dela. Até eu realmente me apaixonar. Até eu arrebentar com qualquer momento filosófico sobre o mundo para trazer um pouco de sofrimento para esse corpo oco. Pelo menos, meu sistema límbico nunca teve que se queixar de nada desde que ela chegou. Era absoluta e incrivelmente linda. Nunca a disse isso. Ela dizia que minha frieza congelaria todos os vulcões do mundo em um minuto e eu ria, considerava esse um elogio. 
Está começando a entender porque meu sistema líbico ficava muito bem oco? Desde que ela o preencheu eu não paro de pensar nela e começo a viajar. Como se meu mundo cor de bile se tornasse a cor dos olhos dela... Você está vendo?! Está vendo o que ela faz comigo? Que tipo de homem torna o mundo a cor dos olhos do amor e deixa com que as pessoas saibam disso? Eu não sei, cara. Quando eu penso nela o equilíbrio se esvai de uma forma que eu não o perderia nem mesmo se bebesse toda a minha cave. Quanto a isso, o primeiro lote de um bêbado começará agora. Minha vida desandou demais enquanto essa folha de papel enchia... Minha vida, na verdade, sempre desanda demais quando qualquer coisa enche. Lembra-te do meu sistema límbico?... Nem eu.

19 de junho de 2012

Que você, que eu.

Que você solte suspiros quando chegar a hora de sair da nossa cama para trabalhar. Que você ajeite a mesa para o café da manhã e compre flores antes de eu acordar e que as deixe num canto da mesa junto com um bilhete escrito "Bom-dia-flor-do-dia-eu-amo-você". Que você chegue no trabalho implorando pra ir embora, que você pense em mim nas últimas horas bem contadas com o ponteiro do relógio pendurado na parede em frente a sua mesa, e que você venha para casa pensando em mim, preparando planos para o fim de semana enquanto fica preso no trânsito. Que você telefone dizendo que vai atrasar para o jantar, mas que chegue com dois ingressos para a última sessão do filme que eu comentei com você que gostaria de assistir. Que você finja esquecer meu aniversário e quando eu chegar em casa as luzes se acendam com sua única voz dizendo "Feliz Aniversário". Que não nos falte companheirismo e carinho. Que não nos falte amor e dedicação. Que seus olhos brilhem a cada "eu te amo" bem pronunciado no início da manhã. Que você nunca deixe de sorrir gostoso, como agora. Que você sempre tenha motivos pra me querer perto e que eu consiga, todos os dias da minha vida, te fazer feliz como hoje. Te fazer feliz, mais do que hoje.

Uma salva de palmas para o destino

Vamos saudar o destino com uma bela salva de palmas, ele merece. Merece por nos iludir tanto. Merece porque mesmo este danado sendo tão incerto, sempre queremos sabê-lo. E o pior é que sabendo-o, sempre queremos mudá-lo. Uma bela salva de palmas para o destino por ficar tão adiante de todas as expectativas existentes, por nos fazer sorrir ou chorar quando menos esperamos. Uma salva de palmas para o destino por ser a fatalidade que todas pessoas estão sujeitas a correr sem tomar nenhuma precaução. Duas (pode ser?) salvas de palmas para o destino que deu certo, para destino que fez soltar um riso torto num dia ensolarado. Uma salva palmas para o destino que derrubou a última folha daquela árvore nos avisando o que virá. Para o destino promissor que quebra, devastadamente, com todas as promessas e que mesmo assim não desistimos dele. E uma gigantesca salva de palmas para nós, que somos tão imprudentes que mesmo depois de tantos destinos terem passado, não aprendemos a cautelar o agora em relação às nossas ações. Em relação à nossos sentidos e à nós mesmos.

26 de janeiro de 2012

Esquecer lembranças


Enquanto eu andava pela rua, todos me olhavam com aquele ar de bom dia mal dado, como se fosse um dia comum. Como se eu estivesse normal hoje. Andei três quadras a espera de um sorriso e por fim, nada recebi. Será que as pessoas são realmente tão ocupadas que não podem nem olhar uma pra outra? Eu precisava de um sorriso, só isso. Abaixei a cabeça e segui reto, convencida de que eu não ganharia o que esperava, pelo menos não era a primeira vez... Eu superaria. Superei a primeira. Superei a segunda. A terceira não superei. A quarta superei pela metade. Mas por que não superei? Lembranças. Que coisa mais maldita essa, não é? Sempre trava meu riso, por mais que eu busque motivos pra rir lá do fundo da minha alma. Sabe... Eu não te esqueci. 
Eu finjo que não te vejo quando você passa, que não te conheço quando me olha - se é que me olha. Suponho que sim, moramos na mesma quadra e todo mundo olha para os lados ao atravessar a rua, ou pelo menos, deveriam.   
Outro dia Alicce me levou na confeitaria, no meu aniversário, sabe? Ela me mandou fazer um pedido, pois só havia conseguido encontrar uma vela. Eu pedi você no pensamento e uma câmera nova em voz alta, nem tão alta, mas alta. Ela tentou me fazer sorrir, eu sorri, fingi.
Não, eu não gosto de me sentir assim. Nunca gostei dessa palhaçada que o amor faz com a gente, que a falta dele faz. 1, 2, 3... Sinto sua falta. Falta das palhaçadas e das noites improvisadas no chão da sala para assistir televisão, você sempre dizia que era por isso, mas eu ficava ali porque era perto da cozinha. Sinto saudade da lente da sua câmera me perseguindo no parque, você adorava a luz do sol e o efeito que ele dava nas fotos. Mas amor, dos nossos planos é que tenho mais saudade, quando olhávamos juntos na mesma direção.  De quando não precisávamos mais nada do que só estarmos juntos, um-do-lado-do-outro.
A pouco tempo eu vi você chegar na loja, deu-me 'Oi' e eu só fiz uma expressão de 'E aí' que mais parecia uma expressão de concordância. Eu devia estar horrível, odeio não ter reação. Você estava comprando uma toalha de piquenique, tive que pedir seu CPF quando me entregou o cartão... Como se eu não soubesse seu nome completo e o número do teu CPF de cor. 
Acho que foi o um bom caminho andado pra parar de lembrar de você. Na verdade, já até esqueci seu nome, sabia? Não sei onde você mora e o que gosta de fazer. Esqueci seu prato favorito e a cor dos seus olhos. Acho que esqueci você. E tô começando a colocar em prática a ideia de que tudo isso um possa ser verdade.

EDUARDA DOMINGUES KOHLS
Pauta para a 104ª Edição Musical do Bloínquês.