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8 de março de 2014

A normalidade da cura

Eu gosto de observar as pessoas em lugares completamente lotados. Gosto de imaginar tudo o que cada uma delas já houvera passado nessa vida. Me traz um conforto imaginá-las nas mesmas circunstâncias que as minhas. Imaginar que todas elas já tiveram uma amizade que as detonou a cara, um amor que as dilacerou o coração, desentendimentos com os pais e, até, um cachorro que morreu. Eu gostava de imaginar isso, cara, é sério! Eu gostava de imaginar que eu era normal. Mas acontece que não era como eu queria, as coisas não aconteciam com normalidade para mim. Por mais que o meu cachorro morresse, com certeza não seria como qualquer cachorro normal morre. Seria de uma isquemia cerebral ou uma epilepsia muito violenta, nada parecia acontecer de forma normal pra mim. 
E eu me perguntava a todo tempo "por que isso acontece comigo?" - nos autoquestionar é sempre a primeira reação. E eu não sabia a resposta, mas gostava de imaginar que se em algum momento me ocorresse algo bom, seria diferente também. Seria o algo bom mais maravilhosos de todo o conjunto de algos bons.
Já fazem dois anos e eu não sei exatamente por mais quanto tempo terei que ficar aqui, mas em compensação Miles e Kary me visitam todos os dias. Acho que eles também esperam que algo bom aconteça. Às vezes Miles traz alguns quadrinhos a fim de que eu literalmente consiga passar o tempo e me distrair, em contrapartida, Kary traz literatura barroca para que o tempo não seja desperdiçado. Sempre achei a situação de ser amiga dos dois um tanto engraçada, duas pessoas de personalidades completamente adversas. Eu não faço ideia de como essas coisas acontecem, esse karma de atrair coisas anormais. E, olhando para eles assim, imagino que seja bem possível que em algum dia os dois se casem e tenham uma filha com o meu nome, em homenagem ao impacto causado a eles por mim. E que, além de tudo, ela tenha uma vida normal, para causar impacto a mim. Como também é possível que eu só os veja juntos nesse quarto durante o período em que a minha vida durar.
Permita-me lhe contar que ao entardecer da última terça-feira, a enfermeira chegou até mim e disse que tinha uma surpresa. Sinceramente, fiz pouco caso. Então ela me entregou uma folha de papel com um desenho que deduzi serem duas pessoas de mãos dadas, artisticamente caracterizado detro do movimento Palitista, aquele que usamos no primário. E, ao canto inferior esquerdo da folha, o nome do garoto do 502. Ouvi cochichos de que ele só tinha mais dois meses contadinhos. Talvez aquele fosse o último desenho da vida dele e eu não faço a absoluta ideia de tão somente quantos dias ele precisou para concluí-lo. Eu mesma estou no quarto para este parágrafo. Seria cômico se não fosse trágico. Desenhei um sorriso que preenchia a folha posicionada na forma de paisagem para agradece-lo pela lembrança.
Há alguns dias, Kary apareceu com os olhos inchados e não quis falar nada sobre isso, somente mencionou que teve um dia difícil a fim de me tranquilizar. Não funcionou. Eu queria saber qual era a coisa normal que havia acontecido com ela. Eu até mesmo poderia dizer que sentia saudade dos imprevistos e tombos que aconteciam comigo durante o passar dos dias, do sentimento de achar que acordou para que tudo desse errado. Sentia saudade inclusive da Lei de Murphy. Mas ela não disse nada além de que estava tudo bem e que seria passageiro. Contudo, é importante frisar que eu não conhecia meus amigos tristes, eles sempre chegam com o melhor humor e o melhor sorriso para me ver. Eu não sabia qual era o entorpecente ou sedativo que os dois tomavam para que fossem tão alegres, de qualquer forma eu gostaria de um pouco.
Só para retomar minhas lástimas: é uma droga não ser normal. Não deseje isso em momento algum. Não corra atrás do "ser diferente". Não queira se destacar sempre. Não odeie algo porque é o que todo mundo gosta e tenha se tornado "modinha". Goste do que você gosta. Use o que você usaria. Seja o que você seria se pudesse ser o que quisesse. Eu teria o cabelo no comprimento da cintura, estaria vestida em um macacão amarelo e colocaria um girassol no cabelo. Frequentaria festas populares e ouviria musicas populares. Eu seria total e absolutamente nor
(...)
Ontem precisei interromper a escrita porque o meu quarto ficou repleto de enfermeiros que injetavam líquidos amarelos ao meu soro, verificavam meus exames e olhavam para mim com ternura. Foram cenas completamente diferentes das que eu costumo ver durante as noites, principalmente pelo fato de que eu não estou mais sentindo dor. Queria contar para Miles e Kary sobre isso e sobre o sonho que eu tive durante essa noite. O estranho é que hoje nenhum dos dois apareceu, espero que cheguem para o próximo horário de visita. De qualquer forma, sei que em breve irei os encontr