Menu

26 de janeiro de 2012

Esquecer lembranças


Enquanto eu andava pela rua, todos me olhavam com aquele ar de bom dia mal dado, como se fosse um dia comum. Como se eu estivesse normal hoje. Andei três quadras a espera de um sorriso e por fim, nada recebi. Será que as pessoas são realmente tão ocupadas que não podem nem olhar uma pra outra? Eu precisava de um sorriso, só isso. Abaixei a cabeça e segui reto, convencida de que eu não ganharia o que esperava, pelo menos não era a primeira vez... Eu superaria. Superei a primeira. Superei a segunda. A terceira não superei. A quarta superei pela metade. Mas por que não superei? Lembranças. Que coisa mais maldita essa, não é? Sempre trava meu riso, por mais que eu busque motivos pra rir lá do fundo da minha alma. Sabe... Eu não te esqueci. 
Eu finjo que não te vejo quando você passa, que não te conheço quando me olha - se é que me olha. Suponho que sim, moramos na mesma quadra e todo mundo olha para os lados ao atravessar a rua, ou pelo menos, deveriam.   
Outro dia Alicce me levou na confeitaria, no meu aniversário, sabe? Ela me mandou fazer um pedido, pois só havia conseguido encontrar uma vela. Eu pedi você no pensamento e uma câmera nova em voz alta, nem tão alta, mas alta. Ela tentou me fazer sorrir, eu sorri, fingi.
Não, eu não gosto de me sentir assim. Nunca gostei dessa palhaçada que o amor faz com a gente, que a falta dele faz. 1, 2, 3... Sinto sua falta. Falta das palhaçadas e das noites improvisadas no chão da sala para assistir televisão, você sempre dizia que era por isso, mas eu ficava ali porque era perto da cozinha. Sinto saudade da lente da sua câmera me perseguindo no parque, você adorava a luz do sol e o efeito que ele dava nas fotos. Mas amor, dos nossos planos é que tenho mais saudade, quando olhávamos juntos na mesma direção.  De quando não precisávamos mais nada do que só estarmos juntos, um-do-lado-do-outro.
A pouco tempo eu vi você chegar na loja, deu-me 'Oi' e eu só fiz uma expressão de 'E aí' que mais parecia uma expressão de concordância. Eu devia estar horrível, odeio não ter reação. Você estava comprando uma toalha de piquenique, tive que pedir seu CPF quando me entregou o cartão... Como se eu não soubesse seu nome completo e o número do teu CPF de cor. 
Acho que foi o um bom caminho andado pra parar de lembrar de você. Na verdade, já até esqueci seu nome, sabia? Não sei onde você mora e o que gosta de fazer. Esqueci seu prato favorito e a cor dos seus olhos. Acho que esqueci você. E tô começando a colocar em prática a ideia de que tudo isso um possa ser verdade.

EDUARDA DOMINGUES KOHLS
Pauta para a 104ª Edição Musical do Bloínquês.