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18 de março de 2011

Se algo ainda funciona


Se algo ainda funciona aqui dentro,
que trate de me avisar.
Pois o meu lado esquerdo,
eu posso perfurar.

Se algo ainda funciona aqui dentro,
que trate de me avisar.
Porque eu posso obedecer o vento,
e a minha alma abandonar.

Então, eu peço:
se algo ainda funciona aqui dentro,
que trate de me avisar.
pois não vou perder mais tempo,
e deixar minha vida sem você:
durar.

3 de março de 2011

Pelo orgulho de Sara

Sem me preocupar com outras coisas alheias, lembrei-me que seria amanhã após o almoço que eu partiria. Partiria rumo a ajudar pessoas necessitadas, sem saber se eu iria voltar de lá, viva e em condições de continuar criando e educando minha filha.
Meu último dia ao lado dela, passava voando, cada minuto que eu esperava demorar, passava mais ligeiro como nunca havia passado antes na vida de qualquer mulher. Sara, era a coisa que eu mais amava na minha vida, e quando a vi me entregando aquela folha ofício com um lindo desenho nela, composto por mim, ela e Fernando. E com aquele lindo sorriso, cujo mesmo lhe faltava dois pequenos dentes na parte de baixo, ela veio dizendo que iria sentir minha falta, com sua voz doce, e pura. Ela se lamentava questionando-me que quem agora faria o letinho matinal dela, cujo mesmo só eu soubera fazer igual. Questionou também sobre quem faria o chá de melissa dela, desligaria as luzes da sala e a colocaria deitada no sofá ouvindo opera. Eu não imaginara que aquilo, fosse tão importante pra ela.
Sara, tinha sido criada com amor, carinho e atenção. Eu pedia para ela, que aproveitasse e guardasse cada momento bom que ela vivia, para depois contar aos seus filhos, pois eu não me lembro de algo bom na minha infância. Então eu dava a Sara, tudo que pude dar de melhor para que ela fosse uma criança feliz, e pelo modo de ter questionado aquilo foi o suficiente para me convencer que eu havia conseguido, foi assim, que na mesma hora, lágrimas caíram sobre meu rosto, escorrendo calmamente sob o contorno de minha face.
- Mamãe, você está triste? Foi algo que eu fiz? - Perguntou minha pequena amedrontada, com aquela voz linda.
- Claro que não filhinha, apenas vou sentir sua falta também. - Disse tentando roubar um sorriso daquele lindo rosto.
Ela de fato, sorriu. Disse que me ama e foi correndo para seu quarto. Eu não entendi o motivo daquela pressa toda, só vi ela voltando com suas bonecas prediletas em mãos.
- Tome mamãe, hoje eu vou deixar você brincar com a Larie, porque você merece. Ah! E quero que você leve o Sr. Dingool com você, para você não sentir medo. Ele sempre me ajuda a diminuir o medo. - Disse Sara me alcançando sua boneca predileta e indo buscar seu “boneco-tira-medo”, como eu costumava chamar. Seu famoso Sr. Dingool.
Eu, sem pensar sorri, e mais lágrimas caíram sobre meu rosto, porém, Sara desta vez não perguntou nada.
- Calma mamãe. Também sentirei sua falta. - Disse minha garotinha.
Eu nem tinha ido, e mal esperava para minha volta. Logo, logo a noite caiu e após ela veio a manhã. Sara acordou a mim e a Fernando na cama.
- Bom dia mamãe! Bom dia papai! A tia Iraci preparou um café da manhã e um bolo para nós, se apressem, senão vou comer tudo sozinha! - E assim ela saiu correndo em direção a cozinha.
A tal tia Iracema, era a "empregada-babá", cuja mesma agora, cuidaria de Sara para mim enquanto eu estivesse fora.
Eu mal consegui comer, apesar de estar tudo maravilhoso! E como as outras horas, o almoço passou ligeiro. E enfim chegou a hora de ir ao aeroporto.
- Mamãe, mamãe! Se apresse! Senão vai se atrasar!
Eu estava dando adeus a Iracema e terminando de dar as últimas dicas.
Chegando ao aeroporto, Fernando se encarregou de apanhar minhas malas, e eu fui desembarcar Sara.
- Tome mamãe, não vá esquecer-se do Sr. Dingool não é? - Disse Sara, me alcançando aquele boneco de cor verde clara.
Eu sorri e peguei o boneco e o inclui em minha mala.
Fernando chegou, e assim mesmo me despedi dele, quando eu ouvi aquela voz de aeroporto:
- Passageiros do voo 246, se direcionam ao local de embarque, o avião sairá em 30min.
E então, eu olhei para minha garotinha, e ela veio em minha direção, nunca me esquecerei daquele momento, ela com seu cabelo castanho claro que tinha "cachinhos" nas pontas, e aquela blusa listrada, que ela tanto gostava usar, vindo a mim de braços abertos, como quem deseja abraçar o mundo. E enfim, eu e abracei. Havia uma dor muito grande por dentro de mim, ter que deixar minha pequena, mas aquilo tinha que ser feito, talvez aquele dia aquilo doesse, mas quem sabe ela se orgulharia de mim no futuro? Pessoas precisavam de ajuda, pessoas precisavam de mim. Aquele abraço foi forte, foi o abraço de uma criança que tinha medo de perder sua mãe. Talvez o medo dela estivesse sendo correto, mas minhas esperanças eram de que não. Minhas lágrimas molham literalmente, o ombro de sua blusa favorita. E ela olhando  para mim inconformada por isso, falou:
- Ei mamãe! Você está me molhando! Eu também vou sentir sua falta.
E assim deixei minha garotinha e o amor da minha vida lá, de pé. Vendo-me partir para uma longa viagem, de fato, muito longa. Meus passos eram dados com muito cuidado, com medo de que desse algo em mim que me fizesse voltar e desistir de tudo! E ficar ali, com minha família. Mas novamente senti que aquilo sim, teria que ser feito.
Dei um ultimo olhar para trás e Sara fez "Tudo Certo" com o dedão, e assim embarquei naquele voo, com o Sr. Dingool sob meu colo, pois esta seria minha única lembrança material dela.


Por: Eduarda Domingues Kohls

Pauta para a 58ª Edição Visual do Bloinquês

O texto ficou extenso sim, mas eu gostei, você gostou? Sim? Não? Me diga!