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11 de outubro de 2015

Não ser um salmão

Ando nauseada. Nauseada pela indigestão que tenho tido do mundo. Pelas barbáries que tenho tido que ouvir. Pelas palavras que descem secas e ásperas pela minha faringe ao evitar expô-las. Ando nauseada da minha incapacidade de solucionar os problemas, pela minha habilidade supernatural de me acomodar com determinadas circunstâncias a fim de que eu não sinta dor. A comodidade sempre me pareceu triste. Não ir contra a correnteza... Não ser um salmão... Não combinam com minha personalidade. Mas parece que um meteoro caiu na minha cabeça e eu esqueci totalmente da realidade que eu tinha. Eu vivo constantemente com medo. Medo de que as coisas mudem; medo de que continuem iguais. Mudanças nunca foram fáceis para mim e mesmice nunca se encaixou na minha vida. Estou internamente em uma fusão de sentimentos que me assombram. Queria sentir menos, porque às vezes me assusta imaginar que talvez eu sinta demais por todos aqueles que não sentem nada. Confusão tem se tornado uma palavra amiga. Intolerância tem se tornado uma parasita. E os desejos que eu tenho não são mais capazes de cobrir toda a insatisfação que eu tenho do mundo. Minhas escritas já não andam mais tão belas. Quando as palavras começam a virar depreciação, o suicídio de alguma coisa começa a acontecer. E a pior coisa que pode acontecer é não reconhecer qual de suas partes se suicidou.

8 de março de 2014

A normalidade da cura

Eu gosto de observar as pessoas em lugares completamente lotados. Gosto de imaginar tudo o que cada uma delas já houvera passado nessa vida. Me traz um conforto imaginá-las nas mesmas circunstâncias que as minhas. Imaginar que todas elas já tiveram uma amizade que as detonou a cara, um amor que as dilacerou o coração, desentendimentos com os pais e, até, um cachorro que morreu. Eu gostava de imaginar isso, cara, é sério! Eu gostava de imaginar que eu era normal. Mas acontece que não era como eu queria, as coisas não aconteciam com normalidade para mim. Por mais que o meu cachorro morresse, com certeza não seria como qualquer cachorro normal morre. Seria de uma isquemia cerebral ou uma epilepsia muito violenta, nada parecia acontecer de forma normal pra mim. 
E eu me perguntava a todo tempo "por que isso acontece comigo?" - nos autoquestionar é sempre a primeira reação. E eu não sabia a resposta, mas gostava de imaginar que se em algum momento me ocorresse algo bom, seria diferente também. Seria o algo bom mais maravilhosos de todo o conjunto de algos bons.
Já fazem dois anos e eu não sei exatamente por mais quanto tempo terei que ficar aqui, mas em compensação Miles e Kary me visitam todos os dias. Acho que eles também esperam que algo bom aconteça. Às vezes Miles traz alguns quadrinhos a fim de que eu literalmente consiga passar o tempo e me distrair, em contrapartida, Kary traz literatura barroca para que o tempo não seja desperdiçado. Sempre achei a situação de ser amiga dos dois um tanto engraçada, duas pessoas de personalidades completamente adversas. Eu não faço ideia de como essas coisas acontecem, esse karma de atrair coisas anormais. E, olhando para eles assim, imagino que seja bem possível que em algum dia os dois se casem e tenham uma filha com o meu nome, em homenagem ao impacto causado a eles por mim. E que, além de tudo, ela tenha uma vida normal, para causar impacto a mim. Como também é possível que eu só os veja juntos nesse quarto durante o período em que a minha vida durar.
Permita-me lhe contar que ao entardecer da última terça-feira, a enfermeira chegou até mim e disse que tinha uma surpresa. Sinceramente, fiz pouco caso. Então ela me entregou uma folha de papel com um desenho que deduzi serem duas pessoas de mãos dadas, artisticamente caracterizado detro do movimento Palitista, aquele que usamos no primário. E, ao canto inferior esquerdo da folha, o nome do garoto do 502. Ouvi cochichos de que ele só tinha mais dois meses contadinhos. Talvez aquele fosse o último desenho da vida dele e eu não faço a absoluta ideia de tão somente quantos dias ele precisou para concluí-lo. Eu mesma estou no quarto para este parágrafo. Seria cômico se não fosse trágico. Desenhei um sorriso que preenchia a folha posicionada na forma de paisagem para agradece-lo pela lembrança.
Há alguns dias, Kary apareceu com os olhos inchados e não quis falar nada sobre isso, somente mencionou que teve um dia difícil a fim de me tranquilizar. Não funcionou. Eu queria saber qual era a coisa normal que havia acontecido com ela. Eu até mesmo poderia dizer que sentia saudade dos imprevistos e tombos que aconteciam comigo durante o passar dos dias, do sentimento de achar que acordou para que tudo desse errado. Sentia saudade inclusive da Lei de Murphy. Mas ela não disse nada além de que estava tudo bem e que seria passageiro. Contudo, é importante frisar que eu não conhecia meus amigos tristes, eles sempre chegam com o melhor humor e o melhor sorriso para me ver. Eu não sabia qual era o entorpecente ou sedativo que os dois tomavam para que fossem tão alegres, de qualquer forma eu gostaria de um pouco.
Só para retomar minhas lástimas: é uma droga não ser normal. Não deseje isso em momento algum. Não corra atrás do "ser diferente". Não queira se destacar sempre. Não odeie algo porque é o que todo mundo gosta e tenha se tornado "modinha". Goste do que você gosta. Use o que você usaria. Seja o que você seria se pudesse ser o que quisesse. Eu teria o cabelo no comprimento da cintura, estaria vestida em um macacão amarelo e colocaria um girassol no cabelo. Frequentaria festas populares e ouviria musicas populares. Eu seria total e absolutamente nor
(...)
Ontem precisei interromper a escrita porque o meu quarto ficou repleto de enfermeiros que injetavam líquidos amarelos ao meu soro, verificavam meus exames e olhavam para mim com ternura. Foram cenas completamente diferentes das que eu costumo ver durante as noites, principalmente pelo fato de que eu não estou mais sentindo dor. Queria contar para Miles e Kary sobre isso e sobre o sonho que eu tive durante essa noite. O estranho é que hoje nenhum dos dois apareceu, espero que cheguem para o próximo horário de visita. De qualquer forma, sei que em breve irei os encontr

26 de dezembro de 2013

Abraçada

Amanhã fará um misero ano que não atulizo nada aqui e isso me causa vergonha. Então, depois de ouvir alguns amigos insistindo, eu resolvi que deveria voltar. Eu não sei como isso vai proceder, mas espero que seja de uma boa maneira.
A calçada e a rua eram estreitas de tal modo que os pedestres podiam caminhar lado a lado dos carros, cada esquina parecia se cruzar com a outra. O aglomerado de pessoas na calçada me abraçava. Talvez não fosse a melhor forma de toque, mas eu me sentia abrangida. Não pense que eu sou uma solitária, carente, mas eu gosto mais do mundo inteiro do que de uma pessoa só. O mundo em seu todo não te fere nos lugares mais dolorosos, porque ele não te conhece, porque ele não te sabe. Em muitas, até mesmo te oportuna o bem perene.
De longe eu avisto as bicicletas do Saint's Cooffe que estão sempre lá, completando a decoração em conjunto com as flores do lado de fora. Seu Pierre costuma dizer que as flores possuem a capacidade de suprir todas as dores e todos os males de uma pessoa. Por isso precisam ser trocadas todos os dias por novas para que continuem desenvolvendo o seu trabalho com tanta sutileza sem equívocos. Para ser sincera, eu não sei exatamente se isso acontece ou se é algo que seu Pierre inventou com a esperança de que as pessoas não deixassem de acreditar na felicidade. Porque, você sabe, não é? Quando acreditamos, acontece. É como se pudéssemos enganar a nós mesmos e a manifestação inteira do universo.
A calçada ainda estava apertada e eu ainda sentia o mundo me abraçar. Contudo, é lógico que eu prefiro um abraço que seja só meu, um carinho seja só meu e um lugar pra ficar que seja só meu. Mas eu quero que entenda: eu prefiro ser do mundo porque eu prefiro não sofrer.

27 de dezembro de 2012

Anarquista denegridor

Tô me rastejando amor, minhas pernas estão pouco firmes para andar. Talvez tudo isso seja culpa tua, mas talvez seja minha. Só minha. Só minha por aceitar todas as vezes que você me chamou de idiota por não te querer sem interromper tuas falas, sem gritar o mais alto que eu pudesse que eu queria sim. Que eu queria mais que tudo. Que eu queria te fazer feliz, que eu queria montar, armar, fixar uma rede na tua vida. Ou quem sabe abrir uma barraca, ou melhor, construir uma casa. Pra nunca mais precisar ir embora, pra nunca mais te deixar. Mas eu tinha medo e também receio, porque no fundo eu sei que tu sabias que o que eu queria era ficar contigo por todo esse sempre. Confesso que, às vezes (ou todas as vezes), eu sentava em um daqueles bancos do lago esperando você chegar, com seu meio de transporte favorito, pra me levar longe dali, pra qualquer lugar desse mundo. E sabíamos, juntos, que teu meio de transporte favorito era o meu também. Porque favoritávamos o amor, mesmo desconhecendo-o. Mesmo não sabendo lidar com ele. Acho que era isso que nós mantia unidos, amor. Esses nossos problemas em comum, essas nossas dificuldades e fraquezas em comum. Que, quando juntos, pareciam pouco importar. Pouco valer um suspiro. Porque pouco acreditávamos nessa história de que corações completam outros. Que almas podem ser gêmeas. Não nos importávamos. Porque brigávamos, discutíamos, discordávamos e mesmo assim eu continuava gostando de você e você continuava gostando de mim, como tocava Oriente.
Amor, você sabe que nunca precisamos da superficialidade. Que nunca precisamos das palavras bonitas pra nos mantermos únidos, porque a única coisa que importava era que estivéssemos com todos os órgãos em total e perfeito funcionamento. Até despacharmos completamente com a serenidade do nosso sistema límbico, cujo qual eu comecei a venerar desde então. Só porque ele tinha você, e eu não.
Estranho.
Engraçado.
E lindo.
Descrevi você no meu chão, no lugar da base. Base que fugiu, que voou. Ou que, simplesmente, deu as costas e se foi.

18 de setembro de 2012

Sistema límbico friamente oco

“Cola em mim, no meu abraço” ela dizia. Sabe, eu sempre achei essa expressão um tanto sugestiva e, até mesmo, arrogante. Como poderia eu colar em ti se mal sei como viver sozinho comigo mesmo? Eu te derrubaria com um passo. Sempre achei demasiada a forma com que você apostava todas as suas fichas em mim, acreditavas que podia ser amor e eu, com meu gigantesco ego, só sabia que te encantava, que te fazia perder o juízo e, quem sabe, a loucura também.
Toda minha vida eu quis alguém assim e quando consegui, me escorei num barranco sem ter um lugar permanentemente certo para ficar. Eu era como um cão sem dono, um mendigo sem lar. Eu era um pleonasmo que sabe muito bem que mendigos não possuem lar, todavia sempre achei a rua um ótimo lugar para se estar. Eu tinha o meu conforto naquela casa branquinha e sempre precedia meu caminho para a rua de asfalto escuro. Sempre fui do contra, como dizia minha mãe. Minha doce mãe, a qual sabe-se lá qual rumo tomaste, hoje eu só tenho de agradecer a ela, ajoelhar-me sem pedir perdão. E era absolutamente desse meu jeito que ela tinha medo, nunca fui de ter arrependimento sobre os atos que eu cometia e ela sabia disso, até mesmo melhor que a mim. Tanto que minha coroa desistiu, me deixou viver sozinho e eu sei que rezava todo dia para que eu tomasse o melhor dos melhores rumos, mas sei também que isso não adiantaria de tal modo que não adiantou. Que reza ou santo nenhum, mesmo existindo, me tiraria do caminho para o buraco. Era a minha sina, sempre foi. 
E hoje estou aqui: feito, completo, crescido. Não tenho absolutamente ninguém para sentir orgulho de mim e dizer “Quem diria, em?”. Por um tempo, no começo, cheguei a pensar se isso não me faria falta, se ouvir alguém ter reconhecimento sobre mim não seria confortante, mas confortante mesmo sempre foi meu Cahors no final da noite e início da manhã. Sentava-me no antigo e “acárico” sofá neon e virávamos noites ele, seis coleções, duas coletâneas e eu, muito bem acompanhados de um Ormes de Pez 82 para dias de sentimento fúnebre. Normalmente, me perguntariam “E as putas, cara?”. E eu vou te falar uma coisa: sempre apanhava o homem que chamava minhas mulheres de putas. Eu me apaixonava por cada uma delas temporariamente. Até o dia em que eu vi os olhos claros dela. Até eu realmente me apaixonar. Até eu arrebentar com qualquer momento filosófico sobre o mundo para trazer um pouco de sofrimento para esse corpo oco. Pelo menos, meu sistema límbico nunca teve que se queixar de nada desde que ela chegou. Era absoluta e incrivelmente linda. Nunca a disse isso. Ela dizia que minha frieza congelaria todos os vulcões do mundo em um minuto e eu ria, considerava esse um elogio. 
Está começando a entender porque meu sistema líbico ficava muito bem oco? Desde que ela o preencheu eu não paro de pensar nela e começo a viajar. Como se meu mundo cor de bile se tornasse a cor dos olhos dela... Você está vendo?! Está vendo o que ela faz comigo? Que tipo de homem torna o mundo a cor dos olhos do amor e deixa com que as pessoas saibam disso? Eu não sei, cara. Quando eu penso nela o equilíbrio se esvai de uma forma que eu não o perderia nem mesmo se bebesse toda a minha cave. Quanto a isso, o primeiro lote de um bêbado começará agora. Minha vida desandou demais enquanto essa folha de papel enchia... Minha vida, na verdade, sempre desanda demais quando qualquer coisa enche. Lembra-te do meu sistema límbico?... Nem eu.